Nos últimos anos, busquei criar ferramentas que pudessem ajudar cantores sem estudo musical prévio em práticas suas individuais. Ferramentas que, de alguma forma, permitissem um desenvolvimento teórico musical de longo prazo por disponibilizarem o repertório a ser trabalhado em diferentes formatos, além do suporte de pequenos artigos abordando questões teóricas fundamentais ou artigos apresentando algum artista específico.
É sempre uma boa ideia ter vários formatos de conteúdo para seus alunos aproveitarem da maneira que for possível para cada um, já que os níveis sempre serão bastante diferentes neste tipo de conjunto. Sabemos que uma parte dos cantores não têm interesse em aprofundar os estudos em música, mas mesmo estes cantores podem se beneficiar mesmo “sem querer”.
Ultimamente tenho voltado a pesquisa para o lado da cognição e teoria da aprendizagem. Quero aprofundar minhas investigações para propor uma metodologia de ensaio em que seja possível monitorar a autorregulação dos participantes, além da própria autorregulação do(a) regente. |Também quero propor uma maneira de medir o bem estar dos cantores ao longo de um determinado ciclo. Seria possível identificar problemas antes que eles atinjam níveis prejudiciais?
Veremos o que sai daí. Tenho algumas ideias para o próximo semestre, mas é preciso ser estratégico nos planos. Como tenho um mestrado para terminar e um doutorado para planejar, é preciso focar os esforços.
Um dos pontos mais importantes da investigação é como eu poderia encontrar paralelos entre as avaliações dos estudantes e do regente.
Seria possível antecipar tendências ao longo de ciclos de preparação?
É possível mitigar os efeitos de mal estar antes que gerem resultados negativos nos ensaios?
Todas essas reflexões precisam ser aprofundadas, mas me parece um tema com alto valor de retorno. Sem contar que elas se aliam a meu desejo de estudar na IU, vamos trabalhar para isso.
No artigo anterior, nós vimos que os dois elementos essenciais da escrita musical são as alturas e as durações das notas. Muitos outros elementos importantes virão – dinâmica, articulação, forma da música, etc – mas para começar, focaremos nas alturas e durações. Neste artigo focaremos nas durações e, com isso, nos ritmos.
A duração da nota é determinada por sua figura rítmica. A combinação entre as diferentes figuras rítmicas é o que nos permite escrever tantos ritmos e o que gera a riqueza de possibilidades da escrita musical. O sistema de escrita que usamos no Ocidente não consegue descrever todas as possibilidades de sons e nuances culturais (convenhamos, como poderia?) mas já é bastante satisfatório.
Vamos às figuras:
Figuras Rítmicas
Como podemos observar na imagem, cada figura tem a metade da duração da figura do compasso anterior (da esquerda para a direita). Ou seja, uma mínima dura metade do tempo de uma semibreve. Uma semínima dura metade do tempo de uma mínima e assim por diante.
Como será que isso soa? Veja no vídeo abaixo!
Atenção: O piano está tocando as notas escritas e o bloco de madeira está trabalhando como um metrônomo, tocando o andamento (pulsação). O andamento é essencial para que a gente não se perca e mantenha a proporção entre as figuras rítmicas.
Toda figura que representa a duração de um som tem a sua respectiva pausa – que representa a duração de um silêncio. Afinal de contas, o que seria da música sem o silêncio?!
A combinação entre as pausas e as figuras de som nos dá muitas possibilidades de escrita rítmica. Veja na imagem as correspondências entre figuras e pausas:
Figuras Musicais e suas respectivas Pausas
Vejam como funciona na prática. O exemplo em vídeo a seguir tem mínimas e semínimas e suas respectivas pausas:
Na notação musical, um compasso é um segmento de tempo que possui uma determinada quantidade de pulsos. A depender do compasso, diferentes figuras rítmicas podem ser usadas como referência para cada pulso.
Os compassos podem ser binários (com dois tempos), ternários (três tempos), quaternários (quatro tempos) ou mistos (uma combinação entre eles — por exemplo: 3+2; 4+3; 5+4).
O que define o número de pulsos de cada compasso é o gênero da música — por exemplo, o samba é um gênero musical com pulso binário; a valsa é um gênero com pulso ternário e o rock é um gênero com pulso quaternário.
A divisão da escrita musical em compassos fornece pontos de referência para facilitar a localização do músico ao longo de uma composição — se dizemos que determinado trecho da música está, por exemplo, no compasso 34, todos podem facilmente se localizar. Os limites dos compassos são indicados por barras (linhas) verticais.
Compassos Simples e Compostos
Os compassos podem ser simples ou compostos. Nos compassos simples, os pulsos são naturalmente subdivididos em dois tempos. Nos compassos compostos, os pulsos são naturalmente subdivididos em três tempos. Veja um exemplo a seguir:
Para ler música, nós precisamos escrever principalmente duas coisas: a altura da nota que queremos (se ela é mais aguda ou mais grave) e sua duração (quando começa e quando termina). Neste artigo focamos nas alturas e, com isso, nas melodias.
A notação musical que conhecemos hoje no Ocidente tem aproximadamente 400 anos. A Igreja Católica já escrevia música desde muito antes, mas os sinais gráficos que utilizamos hoje em dia começaram a surgir por volta do século XVII.
Este é o pentagrama. É sobre ele que escrevemos a música. As notas se alternam entre linhas e espaços e cada nota tem seu lugar, seja numa linha ou num espaço. A altura da nota no pentagrama vai nos dizer se a nota é mais aguda ou mais grave.
As claves são usadas para definir a altura absoluta de um som. Como assim? Imagine o teclado de um piano. Ali nós temos 88 teclas e, portanto, 88 notas diferentes. Como a gente poderia escrever tantas notas em um pentagrama que tem apenas cinco linhas e quatro espaços? Como não seria prático um “pentagrama” com muito mais linhas e espaços, foram criadas as claves musicais.
As claves indicam em que região (grave, média ou aguda) aquele som deverá ser tocado. Instrumentos que têm uma predominância de sons agudos utilizam a clave de sol, os de predominância de sons médios utilizam a clave de dó e instrumentos com predominância de sons graves utilizam a clave de fá.
O piano, por ter uma extensão de notas muito grande, geralmente usa as claves de fá e sol:
Alturas de notas nas Claves de Fá e Sol
Vejam que nós poderíamos descer ainda mais na clave de fá e subir ainda mais na clave de sol para escrever todas as notas possíveis do piano. Poucos instrumentos têm a possibilidade de tocar tantas notas assim. À extensão de notas que um instrumento pode tocar nós damos o nome de tessitura.
Na clave de sol, a nota sol é representada na segunda linha inferior do pentagrama. A partir dela, vamos subindo e descendo entre linhas e espaços para descobrir as outras notas. Após um tempo treinando, as posições das notas no pentagrama vão sendo assimiladas a tal ponto que nós não precisaremos mais “contar nos dedos” até descobrir quais notas estão escritas.
A posição da nota passa a ser algo tão natural que o cérebro vai se ocupar com outras coisas, como fraseado, dinâmica, interpretação, etc…
Na clave de fá, a nota fá é representada na segunda linha superior do pentagrama. A lógica da leitura é a mesma em todas as claves. As notas vão alternando entre linhas e espaços, a diferença entre as claves é o ponto de partida.
Ou seja, na clave de fá, por exemplo, nós partimos de uma nota mais grave para que seja mais fácil escrever as notas dentro do pentagrama, caso tenhamos que escrever para um contrabaixo ou um cantor de voz grave, dentre muitos outros instrumentos. Caso contrário, teríamos que usar muitas linhas suplementares abaixo da clave de sol, o que dificultaria a leitura.
Quer treinar um pouco? Tente dizer que nota aparece no vídeo antes que a legenda com a resposta apareça. Você terá 2 segundos para pensar! 😉
Vamos para um exemplo com melodia. Vejam o vídeo à seguir e acompanhem a barra azul que vai tocando as notas. Abaixo de cada uma está a legenda com seu nome – por enquanto usaremos a legenda para facilitar.
Os Intervalos Musicais são as distâncias entre duas notas distintas. Nós classificamos os intervalos de acordo com as divisões da escala diatônica (nossa famosa escala de Dó a Si), chamando-os de intervalos maiores, menores, justos, diminutos ou aumentados – ou de acordo com a escala logarítmica, utilizando termos como tom, semitom e cent.
As duas escalas e ainda outros termos que usamos para definir as diferenças entre as notas são ferramentas úteis para que possamos estudar os fenômenos do som.
Vejam na imagem a seguir a escala de Dó Maior e observem a distância (ou intervalo) de cada grau da escala para o primeiro grau, que chamamos de tônica:
Figura 1 – Escala Maior
A partir da imagem, observamos que:
Dó – Ré é um intervalo de um tom;
Dó – Mi é um intervalo de dois tons;
Dó – Fá é um intervalo de dois tons e meio;
Dó – Sol é um intervalo de três tons e meio, etc…
Já que estamos falando de uma escala que segue uma estrutura padronizada, podemos generalizar e dizer que, na Escala Maior:
Do 1º ao 2º grau há um intervalo de um tom;
Do 1º ao 3º grau há um intervalo de dois tons;
Do 1º ao 4º grau há um intervalo de dois tons e meio;
Do 1º ao 5º grau há um intervalo de três tons e meio;
Do 1º ao 6º grau há um intervalo de quatro tons e meio;
Do 1º ao 7º grau há um intervalo de cinco tons e meio;
Do 1º ao 8º grau há um intervalo de seis tons.
Nós dividimos, portanto, seis tons inteiros em doze semitons. Assim “surgem” as doze notas do nosso sistema tonal. Observem na figura 1 quantas teclas brancas e pretas do piano há entre um Dó (1º) e outro Dó (8º).
Há diversos outros sistemas de afinação no mundo e este é um tema vasto e muito interessante. No momento, veremos apenas a escala diatônica maior mas em breve abordaremos o assunto das afinações com mais profundidade.
A divisão dos doze semitons não é exata e alguns intervalos são adaptadospara que todos caibam dentro de uma oitava (que é o intervalo do 1º ao 8º grau). A maneira como os semitons serão ajustados é um capítulo à parte e dependerá de uma série de fatores.
Os intervalos da escala diatônica são chamados de justos, maiores, menores, aumentados e diminutos.
Vejamos na próxima imagem os intervalos entre cada um dos oito graus e a tônica (1º grau). No caso da Escala Diatônica Maior ascendente, temos apenas intervalos maiores e justos:
Figura 2 – Escala Maior ascendente
Se fizermos esta mesma escala no sentido oposto, descendente, veremos mais alguns intervalos – menores e justos:
Figura 3 – Escala Maior descendente
Nós aprendemos, apenas subindo e descendo a escala maior, quase todos os intervalos diatônicos. Juntando as duas tabelas, temos:
Figura 4 – Intervalos Diatônicos
Temos ainda os intervalos diminutos e aumentados:
Os diminutos são intervalos com um semitom abaixo dos menores ou justos. Se uma quinta justa são 3 tons e meio de distância, uma quinta diminuta são 3 tons de distância. Se uma sétima menor são 5 tons de distância, uma sétima diminuta serão 4 tons e meio de distância.
Os aumentados são intervalos com um semitom acima dos maiores ou justos. Se uma quarta justa são 2 tons e meio de distância, uma quarta aumentada serão 3 tons de distância. Se uma sexta maior são 4 tons e meio de distância, uma sexta aumentada serão 5 tons de distância.
Enarmonia
A essa altura, percebemos que alguns intervalos tem a mesma distância porém com nomes diferentes: uma sexta aumentada e uma sétima menor possuem ambas 5 tons de distância. Uma quarta aumentada e uma quinta diminuta possuem ambas 3 tons de intervalo. E agora? Como sabemos se estamos diante de uma quarta diminuta ou de uma quinta aumentada? De Lá# ou Sib?
Vamos pensar na estrutura: a escala diatônica é uma escala de sete notas (heptatônica) e cada uma delas representa um grau. Temos, portanto, sete graus e no oitavo grau recomeçamos a escala em uma outra oitava. Se cada nota representa um grau, não podemos ter a mesma nota em dois graus diferentes. Vejamos a escala de Fá Maior como exemplo:
Figura 5 – Escala de Fá Maior
Se do 3º grau (Lá) para o 4º grau precisamos de um semitom, porque não utilizamos o Lá#? Porque o 4º grau de Fá será sempre Si, independente da alteração. Se cada nota representa um grau da escala, o Lá não pode ser o 3º grau e, em seguida, o 4º grau da escala. O 4º grau de Fá será sempre Si, neste caso, Sib.
À medida que vamos estudando, os intervalos vão soando cada vez mais familiares. Primeiro aprendemos as notas:
“Dó – Lá?Sexta!
Ré – Fá?Terça!
Fá – Dó?Quinta! “
Para depois sermos precisos:
“Dó – Lá?Sexta Maior!
Ré – Fá?Terça Menor!
Fá – Dó?Quinta Justa! “
É importante treinarmos os intervalos de modo a automatizar a distância entre as notas. Assim, conseguimos reagir mais rápido quando estivermos analisando uma harmonia ou fazendo a leitura de uma partitura.
Um bom treino é pensar em duas notas aleatórias e dizer o intervalo entre elas. Podemos começar contando “nos dedos”:
Sol-Dó? Sol, Lá, Si, Dó. Quarta!
Fá-Ré? Fá, Sol, Lá, Si, Dó, Ré. Sexta!
Mi-Si? Mi, Fá, Sol, Lá, Si. Quinta!
E então? Vamos estudar? Como tudo na vida, a gente fica bom no que a gente pratica!
A Escala Diatônica Maior é uma sequência de sete notas e podemos dizer que é a fundação sobre a qual se estrutura o sistema tonal. Já ouviu falar de Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá e Si?
Começar com a Escala Maior é importante para entendermos os intervalos entre as notas e, mais adiante, os Campos Harmônicos que formam nosso sistema sistema tonal. A figura abaixo mostra a escala diatônica de Dó Maior:
Figura 1 – Escala de Dó Maior
Esta sequência de intervalos medidos em tons e semitons é a fórmula da Escala Maior. Seguindo esta sequência (T-T-sT-T-T-T-sT), nós podemos construir a Escala Maior de qualquer tonalidade, bastando definir a nota de partida.
Além disso, vemos na imagem que apenas dois intervalos entre notas naturais consecutivas (equivalentes às teclas brancas do piano, sem alteração por sustenido, #, ou bemol, b) têm a distância de um semitom: Mi-Fá e Si-Dó. Todos os outros intervalos consecutivos (chamados de graus conjuntos) são de um tom para a próxima nota. É importante memorizarmos esta diferença.
Seguindo a nossa fórmula (T-T-sT-T-T-T-sT) e tendo como nota de partida a nota Sol, por exemplo, podemos formar facilmente mais uma escala maior:
Figura 2 – Escala de Sol Maior
Na escala de Sol Maior, notamos que a nota Fá tem um sustenido. Por quê ele é necessário? Porque, para seguirmos a fórmula da escala, após a nota Mi precisamos de um intervalo de um tom para a próxima nota porém vimos que entre Mi e Fá há apenas um intervalo de semitom.
A solução é alterar a distância do Fá, deixando ele mais distante do Mi natural e para isto usamos o sustenido(#). Ele altera a nota em um semitom ascendente.
Se fizermos a escala partindo da nota Ré, temos:
Figura 3 – Escala de Ré Maior
Já no terceiro grau (Fá), precisamos de um sustenido, pois Mi – Fá natural é um intervalo de semitom e a fórmula indica que precisamos de um tom. O mesmo ocorre do sexto ao sétimo grau (Si-Dó). Colocamos um sustenido no Dó para que ele fique a um tom de distância do Si natural.
O sustenido não é a única alteração possível. Vejamos mais um exemplo, agora partindo da nota Fá:
Figura 4 – Escala de Fá Maior
O que mudou neste exemplo? Na nossa fórmula, nada. Continuamos seguindo a mesma sequência de intervalos (T-T-sT-T-T-T-sT), porém desta vez usamos o bemol como alteração.
Já que a fórmula nos indica que do 3º grau (Lá) para o 4º grau (Si) temos que ter um semitom e já sabemos que Lá-Si é um intervalo de um tom, a solução é alterar a distância do Si, deixando ele mais perto do Lá natural e para isto usamos o bemol (b). Ele altera a nota em um semitom descendente.
Todas as escalas terão seus respectivos sustenidos ou bemóis. A única Escala Diatônica Maior que não possui alterações é a escala de Dó Maior (figura 1).
Podemos praticar partindo de outras notas. Por exemplo, Si bemol:
Figura 5 – Escala de Si bemol Maior
Vejam que não importa de que nota partimos, seguindo a fórmula nós sempre conseguimos montar a Escala Maior de qualquer tonalidade.
A tonalidade é o conjunto de notas e acordes que gravitam em torno de um determinado centro.
Se estamos, por exemplo, na tonalidade de Lá Maior, temos a nota Lá como centro tonal e tudo será relacionado a ele.
Para praticar, construam as escalas de Lá Maior e Mi bemol Maior. Quantas alterações cada uma delas possuem?
Veremos em breve como as tonalidades estão conectadas entre si e como chamamos seu ciclo completo.